O mistério entre o masculino e o feminino – entrevista com Rose Marie Muraro


A Fetamce reedita entrevista com a escritora e feminista brasileira Rose Marie Muraro, que faleceu neste sábado (21) aos 83 anos, no Rio de Janeiro. Originalmente publicada em 2007, pelo seu assessor de comunicação, Rafael Mesquita, no jornal acadêmico Primeira Página, a matéria aprofunda o perfil da reverenciada autora. Esta é a homenagem da Federação à intelectual que lutava pela igualdade de direitos para as mulheres, reconhecida em 2005 pelo governo federal como Patrona do Feminismo Brasileiro.


Acompanhe abaixo.


 


A brasileira que foi professora nas universidades de Harvard e Córneo (nos EUA) discute a sexualidade do homem e da mulher em sua realção com a sociedade.


Aos 78 anos, Rose Marie Muraro demonstra força, entusiasmo e muita coragem para fazer repercutir por todos os lugares do Brasil a retórica de seu discurso questionador da sociedade.


E é com esse espírito que a intelectual tida como representante-mor e pioneira do feminismo no Brasil reconhecida nove vezes como mulher do ano, uma vez como mulher do século e intelectual do ano de 1994, vem a Fortaleza e discursa aqui no nosso Primeira Página.


Nesta oportunidade, a autora de mais de 25 obras, desde livros sobre economia nacional, passando pelo feminismo, pelos gêneros sexuais, pela educação de jovens e pela política, discute sobre o mundo de disputas e acertos entre o homem e a mulher, segundo ela os dois sexos, os dois únicos gêneros.


Rose Marie recebeu a reportagem do PP no hotel em que esteve hospedada em Fortaleza, na oportunidade, também realizou palestra na Universidade Estadual do Ceará e foi homenageada em cerimônia especial em casa na Aldeota. Convidada pela CMP, Central dos Movimentos Populares, a teórica fechou as comemorações do dia Internacional das Mulheres, no mês de março.


Primeira Página: Primeiramente, gostaríamos que defina como a senhora vê a sua grande e vitoriosa trajetória?


Rose Marie Muraro: A minha trajetória é uma de quem tinha olhos péssimos, de quem tinha tido problemas nos primeiros dias de vida e que ficou com seqüelas, que não tinha vocação para viver e que viveu, que não podia ler e leu, que não podia casar e casou, teve cinco filhos e dois netos e que foi sempre uma pessoa que procurou viver o impossível, tanto que eu digo que só o impossível cria. Sobretudo com o impossível você pode criar.


PP: Como é que você se tornou feminista?


Rose: Bem por acaso. Eu me tornei feminista quando a editora Vozes (editora católica em que Rose foi diretora) quis uma escritora internacional para fazer promoção dela nos 70 anos, então eu tinha escolhido ou o Michel Focault ou a Beth Frida para lançarmos, e o que foi mais barato foi a Beth Frida. E a partir daí foi um sucesso tão inacreditável que eles passaram a me chamar direto de líder feminista. Então eu tive que assumir, porque era todo dia, três vezes por semana que me entrevistavam. Era rádio, televisão, revista… As revistas, como a Manchete, na época, fizeram uma pesquisa junto as mulheres perguntando se elas queriam casar ou estudar e a maioria respondia que queria estudar. Então eles viram que era aquilo que o feminismo pregava, e eu vi que os textos que eu escrevia não pregavam sozinhos, porque naquele tempo de Ditadura Militar as feministas “não davam a cara a tapa”.


PP: E a repercussão da primeira obra foi que te lançou?


Rose: Na verdade a segunda, que não tinha nada a ver com feminismo, era o livro “Automação e futuro do homem” que eu lancei porque tinha estudado física. O meu primeiro livro é de 1964. E eu direto vendi 10 mil exemplares. Naquela época isso era o fato meio inédito.


PP: A senhora coloca em sua obra que “a incompatibilidade sexual entre homens e mulheres acaba criando as relações de oposição dos dois sexos”. E como você enxerga a relação entre o feminino e o masculino?


Rose: Eu acho que é isso que os deuses criados pelos homens querem, que permaneçam essas relações de incompatibilidade e eu descrevo isso nos meus livros “Feminino e Masculino” e “História do Feminino e Masculino” detalhadamente. A questão é fazer deles (homem e mulher) seres complementares, e fazendo deles seres complementares passa-se a não mais fazerem trabalhos desagradáveis, trabalhos em que eles pegam doenças. Eles vão fazer só trabalhos libertadores, que trazem os hormônios positivos do cérebro e não adrenalina.


PP: A senhora também diz que “o homem funciona mais pro eu e o feminino mais pro nós”, mas isso se coloca como caráter social, ou a gente pode dizer que é intrínseco ao ser humano? Essa questão é biológica ou social?


Rose: Ela é cultural. Em toda a pré-história não existia a palavra eu. A palavra eu nasce com a história. Antes prevalecia o nós, a palavra eu é muito recente na historia da humanidade. Vem junto com os invasores, vem junto com o patriarcado, vem junto com a procura dos próprios interesses e em seguida os interesses dos outros. Enquanto outrora você tinha os interesses do grupo em primeiro lugar, você tinha o nós, o grupo, inclusive eu quero dar um exemplo, que eu conheci vi no Canadá: lá havia um velho esquimó que tinha muita dificuldade de dar a sua própria opinião sem ouvir primeiro a opinião do grupo. Tudo era feito por consenso, por persuasão, até por sedução. Isso explica que a unidade você rompe facilmente, mas consenso é quase impossível de ser rompido, pois ele vem pelo profundo de todos. Por isso que não tinham guerras, competição. Antes prevaleciam as relações com o meio ambiente, que eram relações maravilhosas. Era o paraíso terrestre, tinha tudo. Quando foi diminuindo a comida e foi se tentando encontrar território se começou a utilizar animais de grande porte como instrumentos bélicos, ai então começam as relações de guerra em busca de território. No tempo da mulher como gênero hegemônico não tinha guerra, no tempo do homem começa a guerra. Isso tem uns 500 mil anos. Começa, assim, o patriarcado, isto é, quando o homem descobre quem é o pai da criança, faz com que a mulher perca todo o prestígio. Começa assim a dominação do masculino sobre o feminino. A diferença vira desigualdade.


PP: A luta hoje do capitalismo poderia ser considerada a própria luta de gêneros também, porque envolve a questão do patriarcado profundamente?


Rose: A luta contra o patriarcado e a luta contra as desigualdades é uma luta só, é por isso que eu tenho ódio das americanas, que falam de gênero de maneira abstrata, sem falar da pobreza, da miséria. Nós brasileiras somos muito melhores porque ligamos a luta de gêneros com a luta de classes. Como você pode ter uma luta de gênero sem saber que existem opressores e oprimidos. Gênero pra mim só tem dois, os dois da gramática, masculino e feminino, o resto é variação sexual. Caíram no meu colo homossexuais, travestis, transgêneros, transexuais, hermafroditas, tudo isso é variação sexual. Hoje todos ou querem se identificar como mulher ou querem se identificar como homem, mesmo os hermafroditas escolhem um dos dois gêneros. O gênero é uma construção social e cultural. E ele é construído de maneira divergente, por um capitalismo que precisa de luta e de divergência, pra construir a desigualdade pela desigualdade e desconstruir a complementabilidade que traz a união de uma sociedade mais justa e mais compartilhada.


PP: E a repressão pelo aparelho do Estado e pela própria Igreja também pode condicionar os grupos de variações sexuais a serem levados a perversão da cultura, a perversão cultural?


Rose: Não, isso tem também muita coisa biológica. Os sexos são dados, mas eles não são só dois. As vezes você tem  três quartos de elementos femininos na sua composição genética e um quarto de elementos masculinos, é biológico, mas a grande maioria é cultural. Já o hermafrodita é biológico. O transgênero, que tem desforia de gênero, por exemplo, é o que tem o gênero da cabeça diferente do gênero das gônadas. Eu tinha um amigo que era assim, é uma doença, então ele escolheu o sexo dele que era o sexo do cérebro, que era o sexo feminino, então ele tirou o pênis, ele fez uma vagina e eu de sacanagem perguntei: você foi mais homem do que mulher, qual o melhor orgasmo, o do homem ou o da mulher? E ele falou que era o da mulher, porque o do homem é só no pênis, é só aquela de meter e a mulher não, ela goza das pontas dos pés a ponta dos cabelos, então eu vi que ele era mulher porque é assim que a mulher goza. A mulher não goza como o homem localmente, de uma maneira dissociada, ela goza de uma maneira integrada. O homem é por si só desintegrado, por conta da cultura patriarcal, ele chama o corpo de ele e a mulher chama o corpo de eu, então a palavra nós está mais no feminino e a palavra eu está mais no masculino. O eu é o fracionamento máximo dos indivíduos que não se vêem como grupo. Enquanto a mulher fala “eu sou o meu corpo” ela diz “meu corpo é o corpo de todos”, é o nós.


PP: A senhora diz em seu livro “História do Feminino e Masculino” que as relações sexuais masculinas e femininas homossexuais são influenciadas pelas próprias circunstancias físicas e culturais dos seus corpos. A lésbica e o gay transam de forma diferente e por assim dizer o primeiro grupo é mais estável e afetivo que o segundo?


Rose: É, tanto que eu tive uma pesquisa feita nos Estados Unidos dado que diz que os homossexuais homens, dois por cento, tinham tido mais de 1000 parceiros em sua vida sexual ativa, 80% tinham tido mais de 100 parceiros e só dois por cento eram casais. Já as lésbicas eram o contrário, 80% eram casais estáveis. Você vê a diferença entre a sexualidade masculina, quando enxerga as lésbicas frente aos homossexuais masculinos. Então eu chamo os gays os homens mais masculinos e as lésbicas as mulheres mais femininas. Eu gosto é da junção, da complementaridade, do mistério que há entre o masculino e o feminino. A relação entre o igual não me atrai.


PP: Como a senhora vê a prostituição?


Rose: Em Nova Iorque eu fiquei horrorizada porque meu amigo tava vendo qual o preço de um homem. Que isso gente, eu fiquei horrorizada por ver aquilo. Parecia que tava vendo carne no açougue, era assim que os homens faziam com as prostitutas a 10 mil anos. Como é que uma pessoa que pode transar, que é o seu jogo, o que seu profundo pode emergir, pode transar nessas relações mercantilistas. É uma perversão terrível, a maior perversão sexual que existe é o mercantilismo do corpo, para quem compra, para quem vende. Isso é porque não tem outra chance.


PP: E numa sociedade que acaba pregando a venda do corpo diretamente, passando um modelo de mulher e um modelo de homem que tem que ser vendido, que tipo de ação social isso vai acabar levando?


Rose: Eu não conheço uma sociedade que passa um tipo de homem e um tipo de mulher que tem que ser oficialmente vendida, o que tem na sociedade capitalista é que a mídia aproveita o corpo da mulher pra trazer o tesão masculino para mercadorias, o que é completamente diferente, ninguém faz isso, isso ai é uma coisa que é inclusive considerada pecaminosa e no meu contato com as prostitutas elas se julgavam as mais criminosas das mulheres, elas gastavam todo o dinheiro que tinham, porque achavam que era um dinheiro bandido, por ai você vê como as próprias prostitutas se sentem. É o lado mais íntimo com a violência?


PP: Cruzar sexualidade com classe social é a idéia correta pra poder pensar a sociedade hoje?


Rose: Sem dúvida, porque o gênero é a primeira violência que a criança vê, que é a desigualdade entre o homem e a mulher. Mostra a hegemonia masculina, o que também é o sintoma de uma sociedade violenta e excludente pelas classes sociais. Mas no momento em que o pai e a mãe se amam, que o pai e a mãe trabalham juntos, a criança passa a ver e a aceitar uma sociedade mais democrática e pluralista, não uma sociedade violenta e excludente. A democracia ainda não existe, ela é filha do século XXI, filha da democracia participativa, porque não se pode, como os americanos querem, fazer o mundo acreditar misturar democracia com capitalismo. Os americanos são os mais terríveis ditadores econômicos sob a pista de uma democracia política que realmente não existe.


PP: A senhora acredita que é chegando ao mesmo patamar que o homem ou ultrapassando o homem que a mulher consegue alcançar o seu devido lugar?


Rose: Isso ai é um sofismo. A mulher só pode derrubar essa barreira fazendo coisas completamente diferentes. Não vai chegar ao mesmo patamar e nem vai trocar de papel com o homem, ela vai trazer o novo, o misterioso, a solidariedade e a partilha que foram de homens e mulheres da pré-história e que agora ou voltam a ser os valores dominantes ou não temos mais clima, vai haver o aquecimento global, os mares vão subir 66 metros e então não teremos mais planeta como nós conhecemos.


PP: Como os grupos oprimidos podem alcançar uma fórmula para reinterpretar a sociedade, para chegar ao ponto em que a opressão seja uma coisa distante?


Rose: Só tem um jeito, se organizando e erigindo seus direitos, tendo uma consciência política da opressão, sem o que eles vão ficar sempre no mesmo. Quando ele tiver a consciência de que a opressão é o real problema ele terá uma cabeça libertadora, não opressora.


PP: E essa libertação pela consciência, pode ser trabalhada pelos grupos de base, como a CMP (Central de Movimentos Populares)?


Rose: se não for por eles não tem por quem seja.


PP: Para finalizar, a gente vai conseguir superar a incompatibilidade sexual nesse sistema que a gente está vivendo hoje, pela barreira do século XXI?


Rose: Não, com o capitalismo é impossível. O capitalismo vive da opressão, da repressão física e da hegemonia da razão, que é a primeira dicotomia que tem, a dicotomia entre o pênis e o corpo, que é uma figura longínqua entre a dicotomia entre a mente e o corpo, em que o corpo é inferior e a mente superior. E o homem se identifica com a mente e a mulher com o corpo.


PP: A senhora coloca em uma de suas obras que “o objetivo é opressor e a objetividade vem da repressão do corpo e, portanto, da negação do feminino”, explique melhor essa questão.


Rose: Enquanto a matemática foi objetiva ela criou instrumentos de poder, quando ela botou o irracional dentro da objetividade, ela passou a criar ciências mais libertadoras e isso aconteceu no mesmo tempo em que a mulher colocou a subjetividade, as emoções, a sensibilidade dentro da ciência, dentro das ciências sociais, trazendo a noção de gênero, o trabalho de gênero, até onde você pega o cerne da desigualdade. Então, a subjetividade, a sensibilidade e o sentimento, integrados com a objetividade, a racionalidade e a abstração podem fazer o ser humano completo e não separados como a objetividade como único valor pede e é o errado.


Fonte: Fetamce

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