No ritmo atual, Brasil levaria quatro anos para vacinar toda a população

Mulher segura frasco rotulado como de vacina para Covid-19 em foto de ilustração 10/04/2020 REUTERS/Dado Ruvic

Nos 15 primeiros dias de vacinação em janeiro, país só alcançou 0,9% da população. Além da escassez, por que o Brasil não vacina mais rapidamente?

O Brasil encerrou o mês de janeiro com a marca de 2 milhões de pessoas vacinadas contra a covid-19, o que representa apenas 0,9% da população. O ritmo obtido nos 15 primeiros dias em que as vacinas estiveram disponíveis para os grupos prioritários é considerado lento por epidemiologistas devido à urgência de uma imunização coletiva para tentar frear a pandemia do novo coronavírus no país.

Nessa velocidade, seriam necessários mais quatro anos para vacinar todos os brasileiros, segundo cálculo do painel MonitoraCovid-19, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

A necessidade de uma imunização rápida em larga escala, como já realizada no passado pelo PNI (Programa Nacional de Imunizações), se deve ao agravamento da crise sanitária e ao surgimento de uma nova variante do coronavírus em Manaus. Considerada mais transmissível, a cepa já foi identificada em pacientes em São Paulo, e há o temor de que ela se espalhe pelo resto do país, com risco de sobrecarga dos sistemas de saúde e aumento no número de mortes pela doença.

Atualmente, o país enfrenta uma nova onda de covid-19. Na segunda-feira (1º), o Brasil registrou pelo 12º dia consecutivo uma média móvel de mais de mil mortes diárias pela doença. A marca só não é pior do que a observada em julho de 2020, quando o número ficou acima de mil mortes/dia por 25 dias seguidos.

A escassez de vacinas

O país tem 211,8 milhões de habitantes, mas o plano operacional de vacinação contra a covid-19 lançado pelo Ministério da Saúde previa, em janeiro, a aquisição de 314,9 milhões de doses das vacinas de Oxford/AstraZeneca e da Coronavac até o final de 2021. A quantidade é insuficiente, já que cada pessoa precisa tomar duas doses.

Apenas 6 milhões de doses da Coronavac estavam disponíveis no início da vacinação no país, em 17 de janeiro. Com a importação de 2 milhões de doses da vacina de Oxford da Índia e a liberação para o uso de um lote da Coronavac envasado no Brasil pelo Instituto Butantan, com mais 4,8 milhões de doses, o país contava em janeiro com cerca de 12 milhões de vacinas disponíveis, ao todo.

A primeira fase do plano prevê a vacinação de 15 milhões de pessoas dos grupos prioritários — entre profissionais de saúde, idosos, indígenas e quilombolas. Para cumprir a meta inicial, seriam necessários, portanto, 30 milhões de doses.

Mas mesmo com poucas vacinas disponíveis, apenas um quarto delas tinha sido aplicado em todo o país até segunda-feira (1º), revelando lentidão no processo de imunização. Devido à escassez, o governo federal liberou estados e municípios a adequarem seus planos às realidades locais. A falta de coordenação pelo Ministério da Saúde tem sido apontada como um entrave para a vacinação no país.

A situação nos estados

Dados compilados pelo consórcio de veículos de imprensa mostravam que nenhum estado ultrapassou 2% de vacinação de sua população na segunda-feira (1º). O estado com o maior índice era Roraima, com 1,7%, seguido de Mato Grosso do Sul (1,57%), Distrito Federal (1,45%), Rio Grande do Sul (1,44%) e Alagoas (1,32%). Estado mais populoso do país, São Paulo alcançou apenas 0,84% até a mesma data.

O número de doses aplicadas em relação ao montante de vacinas recebido por cada estado também não ultrapassa dois quintos do total. O Paraná, campeão da lista, havia aplicado 38% das vacinas de seu estoque apenas. Depois dele, vinham Rio Grande do Norte (37,3%), Espírito Santo (37,2%), Goiás (35,4%) e Bahia (35%).

A região Norte, que mais tem sofrido com o avanço da pandemia em janeiro, aparece no final da lista. O Amazonas tinha usado apenas 9,9% das vacinas que recebeu. Pior do que ele apenas o Acre, com 9,6%.

Apesar de constar como oitavo em número absoluto de doses aplicadas em todo o mundo, o Brasil é apenas o 34º país no ranking de vacinação proporcional à sua população, segundo dados do projeto Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford, no Reino Unido.

0,1% – é a taxa da população que o Brasil tem vacinado por dia, segundo o site Our World in Data

Os países que lideram o ranking são Israel (com 34,74% da população vacinada), Emirados Árabes Unidos (31,18%) e Reino Unido (13,22%).

Os problemas na vacinação

Sem uma centralização do processo pelo governo federal e um detalhamento do público-alvo na primeira fase, houve problemas na vacinação pelo país e registros de pessoas furando a fila.

No Amazonas, a Justiça interrompeu a distribuição de vacinas em 26 de janeiro até que a prefeitura de Manaus garantisse transparência na programação e nos critérios usados para a aplicação dos imunizantes. A vacinação foi liberada no estado no dia seguinte. Devido ao agravamento da pandemia na região, o sistema de saúde entrou em colapso e pacientes morreram sem oxigênio.

O Ministério Público Estadual do Amazonas chegou a pedir a prisão do prefeito da capital, David Almeida (Avante), e da secretária municipal de Saúde, por suspeita de fraudes, o que eles negam. A Justiça negou o pedido.

Em São Paulo, houve também confusão na vacinação no Hospital das Clínicas, que por falta de critérios claros, vacinou funcionários jovens da área de relações institucionais, que não estão na linha de frente do combate à pandemia, enquanto outras instituições receberam vacinas em quantidade insuficiente para imunizar todos do grupo prioritário.

Para a ex-coordenadora do PNI Carla Domingues, o fato de o governo federal ter “pulverizado” as doses pelos 5.570 municípios brasileiros foi um erro, tendo em vista que muitos deles têm poucos registros de casos da doença, além de não contar com estrutura adequada, como hospitais e unidades de emergência. Esse tipo de distribuição também impede o controle efetivo do que é aplicado.

“A experiência em campanhas de vacinação contra a gripe mostra que essa estratégia não se justifica quando há falta de vacinas”, escreveu em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, no sábado (30), em colaboração com o médico Drauzio Varella.

Segundo os autores, o efeito de entregar apenas 300 doses para cada município será ínfimo no objetivo de alcançar uma imunidade coletiva. Por isso, as doses deveriam se concentrar em regiões que mais precisam neste momento, como o Amazonas.

Manaus, por exemplo, deveria ter recebido vacinas em quantidade suficiente para já ter imunizado as 200 mil pessoas que formam o grupo acima de 60 anos e com comorbidades — o estado recebeu apenas 130 mil doses.

“Com o colapso do sistema de saúde, a vacinação de todos, no menor prazo de tempo, seria mais efetiva — principalmente no contexto da circulação da nova variante da cepa do coronavírus naquela região”, escrevem.

A capacidade de vacinação do país

Com quase meio século de existência, o PNI possui 37 mil salas de vacinação espalhadas pelo país e pode alcançar 50 mil pontos de vacinação em tempos de campanhas. Ao longo dos últimos anos, o programa adquiriu experiência em imunização de massa e poderia aplicar as vacinas contra a covid-19 em menos tempo.

Domingues lembra, por exemplo, que o Brasil já imunizou 18 milhões de crianças contra a poliomielite num único dia. Em 2010, num intervalo de apenas três meses, 100 milhões de pessoas foram vacinadas contra a H1N1 — o que dá uma média de 33 milhões por mês ou mais de 1 milhão de vacinas aplicadas por dia.

As doses previstas

Com a liberação dos insumos importados da China para a produção de vacinas no Brasil, a Fiocruz prevê entregar mais 20 milhões de doses da vacina de Oxford ao PNI no início de março.

Antes disso, o país pode receber as primeiras doses previstas no programa Covax Facility, coordenado pela OMS (Organização Mundial de Saúde). O Brasil tem direito a 42,5 milhões de doses da vacina de Oxford por meio da iniciativa.

As primeiras devem chegar em fevereiro. O governo federal chegou a anunciar que algo entre 10 e 14 milhões de doses poderiam chegar neste mês, mas a OMS disse que não é possível garantir esse número.

Na segunda-feira (1º), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), também anunciou a liberação de mais 5.600 litros de insumos da China para a produção da Coronavac no Brasil. O material deve chegar na quarta-feira (3) ao país e renderia a produção de mais de 17,3 milhões de doses dentro das 46 milhões previstas para serem entregues inicialmente ao governo federal até o meio do ano.

Fonte: Nexo

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