Método facilita diálogo com jovens em conflito com a lei

Diante de 27 quadros espalhados pelo chão, um grupo de adolescentes é convidado a selecionar uma imagem para, em seguida, relatar sua impressão sobre a cena retratada, fazendo um contraponto com sua trajetória de vida. É dessa maneira que funciona o método Quadros, desenvolvido pelo Instituto Fonte para o Desenvolvimento Social.


Inspirados na linguagem de histórias em quadrinhos, os quadros trazem situações que tendem a se apresentar a jovens em situação de vulnerabilidade social. Família, amigos, violência e sexo são alguns dos temas dos desenhos.


“A imagem é um instrumento capaz de disparar conversas. O objetivo do Quadro é favorecer uma forma diferente de aproximação entre adolescentes e educadores, promovendo assim um espaço efetivo de diálogo”, explica o coordenador da pesquisa que resultou no método, Daniel Brandão, do Instituto Fonte.


O Quadros surgiu em 2007 durante uma avaliação do programa Pró-Menino: Jovens em Conflito com a Lei, da Fundação Telefônica. Para compreender os aspectos marcantes da trajetória de vida de adolescentes que cumpriam medida socioeducativa em meio aberto, o Instituto Fonte desenvolveu essa metodologia.


“Não havia tempo para construir uma relação a longo prazo com os adolescentes. O Instituto resolveu experimentar uma nova estratégia para estimular o diálogo. Queríamos ver a vida por trás do número. Saber mais sobre a biografia dos jovens”, lembra Brandão.


Como a estratégia se mostrou eficaz, o Fonte começou a disponibilizar o método gratuitamente para outras organizações interessadas. Em dois anos, mais de 400 profissionais que atuam em 13 estados brasileiros participaram de oficinas sobre a metodologia. Eles aprenderam que cabe ao educador explorar a leitura do jovem, suscitando questões para problematizar a narrativa, sem fazer julgamentos.


“O Quadros ajuda a desconstruir a formalidade, os discursos prontos. Isso nos ajuda a conhecer a biografia dos adolescentes. Também facilita a construção de vínculo entre educador e educando”, comenta o psicólogo Eduardo Khater, que aplica o método com os jovens do programa de Prestação de Serviços à Comunidade, do Centro de Orientação ao Adolescente de Campinas (COMEC).


De acordo com Khater, a postura desconfiada dos jovens e os discursos pré-estabelecidos são desafios comuns no trabalho com adolescentes em conflito com a lei. A falta de abertura para o diálogo e a fala institucionalizada dificultam o acompanhamento psicológico. “O Quadros facilita essa aproximação, ajuda quebrar as barreiras. Mas não é perfeito. Às vezes, o adolescente chega com muita defesa e temos de trabalhar de outra maneira”.


Para o colaborador do Instituto Fonte, Wellington Pereira Muniz, o Quadros tem contribuído com o trabalho dos educadores. “A leitura das imagens revela dados da vida dos jovens que, muitas vezes, os educadores não sabiam ou tinham dificuldades em abordar diretamente”, comenta.


Khater dá como exemplo os casos de violência doméstica, quase nunca revelados durante entrevistas formais. “Sempre foi bastante difícil abordar essa temática com os jovens. Há um quadro que sensibiliza a adolescente contar sua vivência. A partir daí, podemos trabalhar a revolta diante dessa situação”.


Outros públicos


Wellington já foi um adolescente em conflito com a lei e trabalhou no desenvolvimento do método. Hoje é educador e utiliza o Quadros para pesquisa de um documentário sobre as visões da periferia de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo.


“As imagens refletem o universo de qualquer jovem, na apenas daqueles em conflito com a lei”, complementa Khater.


Daniel Brandão ressalta que hoje o método tem sido utilizado também para promover o diálogo entre educadores. As pranchas estimulam os profissionais a discutirem seu papel e reverem posicionamentos sobre os adolescentes em conflito com a lei.


O primeiro trabalho do Instituto Fonte com o método foi sistematizado na publicação “Vozes e Olhares: uma geração nas cidades em conflito”. No livro, além da avaliação do programa Pró-Menino, há narrativas de adolescentes e a explicação sobre a metodologia do Quadros.


Fonte: Fetamce

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