Distribuição de cloroquina pode causar “problemas de saúde graves e até mortes”

Em artigo, que você pode conferir abaixo, o médico sanitarista Manoel Fonseca, que é epidemiologista, mestre em Saúde Pública e membro da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia (ABMMD/CE), comenta os perigos associados à distribuição de cloroquina e seus derivados por planos de saúde do Ceará.

As empresas, segundo Fonseca, estariam submetendo clientes ao risco de morte e problemas de saúde possivelmente eternos. Além disso, ao propor assinatura termo de responsabilidade, as operadoras de saúde jogam a eventual culpa por falecimentos e sequelas nas costas dos pacientes. Acompanhe o texto na íntegra:

A cloroquina é usada há mais de 70 anos no Brasil e o seu derivado, a hidroxicloroquina, para tratamento de malária e algumas doenças reumáticas, como o lúpus e a artrite reumatoide. Nestes dois últimos casos, por geralmente ser um tratamento mais prolongado, há a necessidade de acompanhamento sistemático por um médico, pois pode causar lesões oculares e até cegueira e distúrbios cardíacos graves e até o óbito. Dependendo da dosagem, estes distúrbios podem acontecer precocemente.

A Unimed e a Hapvida, ao distrbuirem a hidroxicloroquina a nível ambulatorial, estão praticando uma temeridade e, potencialmente, podem propiciar problemas de saúde graves e até mortes de seus clientes, pois eles irão para casa e, numa intercorrência aguda, dificilmente chegarão ao hospital a tempo.

Para se proteger de possíveis processos, estes Planos de Saúde pedem ao paciente que assine um termo de responsabilidade, com conteúdo muito semelhante ao do Ministério da Saúde, divulgado pelo general-Ministro. Este termo de consentimento ressalta que “não existe garantia de resultados positivos” e que “não há estudos demonstrando benefícios clínicos”. O documento afirma ainda que o paciente deve saber que a cloroquina pode causar efeitos colaterais que podem levar a “disfunção grave de órgãos, ao prolongamento da internação, à incapacidade temporária ou permanente e até  óbito”.

Bolsonaro, o general Ministro, a Unimed e a Hapvida querem distribuir indiscriminadamente a hidroxicloroquina e responsabilizar o paciente pela decisão de aceitar este tratamento e pelos possíveis efeitos colaterais, alguns muito graves, que poderão ser letais.

A Unimed e Hapvida estão promovendo uma falácia, justificando que esta decisão reduziria as internações e a ocupação dos leitos de UTI e protegeria seus clientes.

Documento divulgado em 19/05/2020 pela Associação de Medicina Intensiva Brasileiro, pela Sociedade Brasileira de Infectologia e pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, reunindo ao todo 27 especialistas, informa terem chegado a um consenso para não recomendar o uso da cloroquina e a hidroxicloroquina no tratamento da COVID19, por não encontrarem nenhuma evidência científica de seus benefícios. Este consenso é respaldado numa bibliografia contendo 79 publicações nacionais e internacionais de estudos e pesquisas sobre este tema.

Por Manoel Fonseca (Médico Sanitarista e Epidemiologista; Mestre na área de Saúde Pública)

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