Pesquisadora debate o que se entende como o futuro do trabalho

A FLACSO – Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, sediada na Argentina, tem produzido uma série de cursos que têm o desafio de pensar os impacto das transformações tecnológicas no mundo do trabalho, especialmente neste processo de substituição de trabalhadores por iniciativas de automação, ou mesmo recursos que criam novas modalidades de emprego, como os aplicativos de serviços de transporte, a exemplo da UBER e da 99.

A partir deste prisma, Marta Novick, socióloga e pesquisadora especializada em questões trabalhistas e tecnológicas e inovação no espaço produtivo, afirma que é necessário lançar um olhar sobre as transformações em andamento e futuras, bem como a revisão da literatura internacional. Tal observação deve ser focada na região (a autora conversa a partir da América Latina). “Deve ser feito a partir de um olhar que desconsidere o conceito de determinismo tecnológico, enquanto já foi demonstrado que essa hipótese não teve caráter explicativo dominante ao analisar as diferentes ondas de mudança tecnológica que vêm ocorrendo não apenas desde a Primeira Revolução Industrial, mas nos últimos 40 anos, em que houve um importante avanço nos processos de automação, da revolução nas telecomunicações , na digitalização, na massividade dos dados e no aumento da velocidade de transmissão”, afirma. 

Novick continua chamando atenção para “as mudanças organizacionais, não apenas no nível das empresas individualmente, mas através das cadeias globais de valor que produzem e produzirão mudanças de magnitude nas relações interfirmas a nível internacional, facilitadas pelas novas aplicações tecnológicas ou pelas novas estratégias e maneiras de implementar as anteriores”.

De acordo com a pesquisadora, tais processos são facilitados pela estrutura dominante de globalização resultante de avanços tecnológicos, mas também dominados por novas modalidades de emprego e contratação. “Nas últimas décadas, a produção global se fragmentou em diferentes tarefas dos processos de produção que são realizados em diferentes países. Essa organização da produção ao longo das cadeias de suprimentos globais aumentou a interconexão entre agentes econômicos de diferentes setores e países”. Para ela, existem novas tendências nos empregos que fazem parte das cadeias de suprimentos globais e “estão associadas ao chamado ‘serviço de fabricação’ (Viegelahn, 2016) e as chaves para os desafios em termos de treinamento e competências associadas”, complementa.

O terceiro aspecto que Marta Novick levanta é a reflexão de que o futuro do trabalho está relacionada às novas formas de emprego ou modalidades de contratação. “A OIT avançou na preocupação com a possível falta de qualidade no emprego e estudou o que chama de ‘sistemas de emprego não padronizáveis’, que se somam às modalidades precárias e informais que predominam na América Latina para uma parte importante dos trabalhadores. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), por sua vez, acaba de realizar um seminário sobre o futuro da proteção social, focado na preocupação de proteção social para trabalhadores em ‘empregos não padronizados’ e para trabalhadores independentes”, explica.

O futuro do trabalho, então, na sua accepção, integra, por um lado, novas tecnologias digitais (a chamada inteligência artificial (IA), Tecnologia 4.0 e a combinação e convergência tecnológica de disciplinas e facilitadores associados a esses processos dentro da empresa, ou entre empresas de nível regional ou internacional, novas demandas e tipos de emprego (como empregos à distância, “sob demanda”, trabalhos de show, plataformas colaborativas e diferentes modelos de subcontratação, ou sem relacionamentos) de emprego claro) que são justapostas à precariedade e informalidade “clássica” de importantes grupos da força de trabalho, especialmente nos países em desenvolvimento.

“Esse conjunto de dimensões atua em conjunto e requer, então, uma análise das mudanças prováveis ​​tanto no mercado de trabalho quanto na qualidade do emprego e na quantidade, configuração e conteúdo dos empregos, aqueles que podem eventualmente ser eliminados, como naqueles que podem ser criados ou modificados. Essa análise deve ser pensada e contextualizada no marco da incompatibilidade estrutural da região, seu modelo de crescimento baseado em “recursos naturais” – e, portanto, pouco diversificado e muito oscilante – e a necessidade de implementar novas estratégias produtivas, trabalhistas e sociais entrar com maior produtividade e competitividade para um cenário de alta incerteza”, discute, Novick.

A estudiosa retoma então que  os primeiros estágios da mudança tecnológica, a primeira revolução tecnológica, foi a introdução de máquinas cujas principais energias eram carvão e vapor. “Os teares foram originalmente introduzidos no século 18 na Grã-Bretanha e depois generalizados para toda a indústria manufatureira; A segunda revolução surgiu com a introdução da linha de montagem contínua. Na fábrica de automóveis Ford, em 1903, para produzir o modelo T, a produção foi organizada em uma linha contínua percorrida por carros, onde eram feitas paradas para executar as várias tarefas até o produto final; A terceira revolução está ligada às tecnologias da informação e comunicação (TIC). O uso de computadores capazes de armazenar, processar e transmitir informações em espaço aberto para realizar novas atividades e transformar as já existentes, utilizando nelas as possibilidades permitidas pelas novas tecnologias; A atual revolução tecnológica, a quarta, focada na indústria – mas não exclusivamente -, para o que é freqüentemente chamado de revolução industrial, é baseada em uma série de mudanças relacionadas que, juntas, determinam uma nova maneira de abordar a questão produção, consumo, a relação entre os atores, com um grande aumento na capacidade de produção e produtividade, então alguns afirmam que estamos no início de um novo mundo”, conclui.

Assim, o último estágio é a Indústria 4.0, como é chamada a corrente atual de automação e troca de dados em tecnologias industriais ou de manufatura. Inclui sistemas ciber-físicos, a Internet das coisas, computação em nuvem e computação cognitiva. A Indústria 4.0 cria o que foi chamado “a fábrica inteligente”. Dentro dessas fábricas estruturadas modularmente, os sistemas ciber-físicos monitoram os processos, criando uma cópia virtual do mundo físico e tomando decisões descentralizadas. Além da Internet das coisas, os sistemas ciber-físicos se comunicam e cooperam entre si e com as pessoas em tempo real e por meio da Internet de Serviços, e os cruzamentos organizacionais de serviços são oferecidos e usados ​​pelos participantes da cadeia de valor.

“A questão é se essa mudança tecnológica e seus impactos no mundo do trabalho são diferentes das mudanças anteriores. Mokyr, Vickers e Ziebarth (2015) confirmam que os debates de hoje sobre os impactos no mundo do trabalho são muito semelhantes aos debates realizados nos séculos XIX e XX e que se preocupam com os impactos adversos das novas tecnologias nos Trabalho e emprego, que parecem muito dominantes em algumas discussões, não são novos”, avalia.

Por fim, Novick coloca que em cada estágio tecnológico, no entanto, a dinâmica de incorporação dessas novas tecnologias é heterogênea, descontínua e geralmente expressa em mercados de trabalho segmentados e em economias que evoluem em velocidades diferentes, com fortes conseqüências nos processos de inclusão e no mercado de trabalho. distribuição de renda. “A relação entre mudança tecnológica e emprego, ou mais adequadamente entre inovação e emprego, deve ser entendida no âmbito de uma equação em que o Estado, instituições públicas e privadas e o nível de competência de indivíduos, empresas e regiões atuam, uma vez que, embora exista uma difusão de TICs em escala global, não há necessariamente uma globalização das capacidades tecnológicas de empresas e países. O tipo específico de tecnologia não atua como fator determinante, mas como uma dimensão interveniente no processo. Até a relação deles com o emprego será condicionada pelo tipo de estrutura organizacional e gestão do conhecimento envolvida”.

Para a pesquisadora e professora na FLACSO, em diálogo com outros autores, a recente onda de mudanças tecnológicas mais uma vez ganhou considerável atenção e criou um debate controverso sobre o futuro do mundo do trabalho. “Alguns acreditam que esse novo estágio de mudança tecnológica e inovações destruirá os empregos de maneira massiva e preverão um futuro com falta de empregos. Por outro lado, os otimistas esperam que as novas tecnologias possam mobilizar processos de ajuste e transformação que possam criar novos empregos, e até idades de ouro na criação de empregos”, finaliza, colocando as perspectivas que não encerram a discussão.

Amanhã apresentaremos o debate proposto sobre perspectivas “pessimistas” e um “outro olhar sobre a incorporação da mudança tecnológica”.

DEIXE UM COMENTÁRIO